a cidade e seus palimpsestos de pedra
todos os dias penso em alex. não sei dele mais que uma frase. dia e noite, qual um luminoso quebrado, a carta anônima para um desconhecido qualquer, timbrada na viela, me desvia o caminho. ”SAUDADES DO PARCEIRO ALEX”. penso em alex e penso a imagem de uma ausência. penso em todas as saudades encobertas por novas tintas . penso em alex e me esqueço.
XX
com a noite escura vendo as pálpebras.
vestido em combinações aleatórias
(de um zodíaco
de aves de rapina
de cavalos em chamas
de tremores líquidos
de anestésicos geodésicos
de noturnos dentes
de maças do amor
de sobras de céu
de sombras mortas
de escritos ilegíveis
de convulsões metálicas
de peixes em vestes eclesiásticas
de sirenes que carregam comas
de pigmentos degenerados
de corolas nos abatedouros do sol
de declives infinitos
de sonâmbulos em folhas mortas)
convido as esfinges para o meu próprio fuzilamento.
a performance, enquanto manifestação artística, autorizou uma certa morte do objeto, pois dissocia a permanência do gesto de uma idéia de materialização, tornando o registro de um ato performático a extensão de uma ausência. mas não seria todo objeto artístico essa extensão? pois me parece que o trabalho mais importante do artista não seja a obra, mas sua ordem de produção, pois o objeto é a dissolução do artista no mundo, não a sua afirmação: o objeto artístico é um apanhado de ações perdidas do e no próprio autor – no fundo, todo artista é um ser performático que contempla os monumentos da sua própria desaparição.
hiatos
tem algo de irremediável no humano, um sentimento de abandono, de falta de unidade consigo e de união com o mundo, que mais cedo ou mais tarde se apresenta até mesmo ao mais otimista dos indivíduos - talvez seja a solidão os desdobramentos da nossa ausência nas coisas mais do que a delas em nós.
post-it
a disciplina é uma ilusão cartesiana, a coisificação do sujeito através do corpo, da organização dos sentidos, na tentativa de se criar um espaço de si. mas o corpo não é espaço: é entidade processual (da qual a mente também é subordinada): o corpo é o lugar dos desejos, do não-controle, da falha. qualquer tentativa de disciplinamento dos sentidos é o mesmo que transformar-se em simulacro de si.
afirmo o tempo que me resta através da minha dissipação
o peso do tempo é o que sobra da sua passagem.
as noites são menos escuras que os homens
somos alvos móveis: sujeitos de um enunciado tão arcaico, cujo tempo deteriorou a passagem original, que nos transformamos em esfinges, verdadeiras fronteiras de aniquilamento, do outro e de nós mesmos – não existem respostas pois a pergunta é a chaga, a indução ao erro que implicará em mais destruição. esse jogo antropofágico do qual se constitui a existência, é quem nos aponta o mistério no qual estamos inseridos – mistério esse que só aumenta, à medida que nos damos conta de que a verdade é uma construção inóspita da fragilidade que nos impõe o mesmo mistério. somente através da dúvida, resultante da reflexão da chaga, alcançamos a fé – somos, então, os seres que guardam a ausência do próprio segredo e insistem na busca do desconhecido: de nossas fronteiras intransponíveis aguardamos a morte, a esperança que repousa sobre todas as coisas.
alegoria da ausência
o corpo é esquecimento: prepara tua caveira para a extinção da sombra.
para o anselmo, que tem o dom da vida
são paulo é a terra do abandono - a garoa, apenas recurso poético.
ao estranho do metrô
talvez voce leia e a gente nunca se encontre novamente, mas talvez nós sejamos algum tipo de nadja & breton e nos sentemos mais uma vez naqueles bancos e então eu acabe por avisá-lo sobre isto - cartas são sempre anacrônicas. o que voce me disse sobre o deserto de areia me fez muito sentido - menos pelo calor que fazia naquela quarta-feira do que por onde me encontro, pois, assim como voce sabia que eu gostava de falar com estranhos em filas de banco, sabia, também, que viver é atravessar desertos; outros desertos - não menos difícieis. eu é que não sabia, com exatidão, quão vasto pode ser um encontro tão fortuito. confesso que demorei algumas estações até entender que a história sobre seres quase fantásticos, que enfrentam extremos de temperatura e solidão durante dias, apenas com seus animais e suas vestes brancas e cheias de camadas, que servem tanto para o calor do sol, quanto para o frio da lua, não era apenas uma história louca contada por um estranho após levar uma cotovelada num vagão de metrô, mas, sim, que era uma das metáforas mais bonitas de que já tive conhecimento, sobre como o espírito é protegido pelo corpo durante a passagem e o fim do tempo.
p.s.: não perguntei o seu nome porque, como voce me disse que, às vezes, algumas pessoas são enviadas por algum motivo que nos escapa, preferi aceitar que já era bastante ter me sentado ao seu lado e, enquanto esperava o mistério terminar sua pequena ação, pensei que se um dia tivesse que saber seu nome, nos encontraríamos de novo. me lembrarei de voce enquanto precisar me vestir para o deserto.
a imagem fotográfica é povoada por fantasmas - da captura à sua revelação, incluindo sua capacidade de reprodução. é na fotografia (e também no cinema, pois este, em primeira instância, é uma sequência fotográfica) que a realidade é duplicada com tamanha precisão - eis o nascimento do fantasma -, que os limites entre essa realidade e sua ficção tornam-se frágeis a ponto de, ao habitarem o mesmo fotograma, imprimirem uma semântica única à escritura da luz, permitindo uma significação imagética autônoma, na qual a significação verbal torna-se desnecessária devido ao descolamento da imagem da palavra. e é na idéia do instantâneo fotográfico que se iluminam os fantasmas - não à toa, carregam no nome seu próprio destino: o que vem à luz -: são esses seres que habitam mundos tão distintos simultaneamente, que permitem a percepção do que o olho não capta em sua organicidade: com frações de segundo, é possível catalogar uma infinidade de fragmentos dentro do fragmento perpetuado - a realidade imutável e a realidade sensível, matéria e espírito ocupando o mesmo lugar: a fotografia, em sua fantasmagoria, é a idéia platônica de imagem.